• Ana Paula Maciel Vilela

Mãe




Foto Unsplash Kristine Cinate @kristine_cinate


Para ela ligo todos os dias.

Antes o fazia em dias alternados.

Tinha receio de que minha voz pudesse cansá-la.

Em tempos de quarentena ligo todos os dias,

Antes das três para lembrá-la do filme da sessão da tarde, ou

Após as quatro e trinta, horário em que muitas vezes está sozinha, quando a acompanhante já se foi.

Ligo para tentar preencher seu dia com minhas histórias.

Conto um pouco tudo o que fiz e senti com aquele fato narrado,

Busco despertar lembranças, histórias que ela também conta.

A gente ri. Fica leve. Fica tão bom!

Eu quase sempre choro apertado quando vejo que aquela ligação acabou.

Mais um dia.

Ela agradece, sempre, a ligação.

Minha avó, sua mãe, fazia o mesmo quando eu ligava.

Acho que se sente agradecida por ter me lembrado dela,

Por ter gastado alguns poucos minutos para mostrar a ela que é lembrada,

Querida,

Amada.

Mãe, quem agradece,

Sou eu.

Hoje, todos os dias,

E no dia depois de depois daquele último dia.