• Ana Paula Maciel Vilela

A Mudança

Updated: Dec 5, 2020



Foto por Ana Paula Maciel Vilela


A excitação ocupava lugar na reunião enquanto o aroma doce do chá de capim limão misturava-se com a erva doce assando no bolo de milho. A sala de estar conjugada com copa e cozinha da casa dos pais tornara-se o ponto de encontro da família nos finais de semana. O assunto era a mudança definitiva da capital para ocupar as terras na fazenda, herança deixada pelos avós maternos à mãe. O projeto “Famílias Reunidas” crescera devagar e de forma informal durante alguns encontros nas férias e começou como uma brincadeira. Neste estágio algumas frentes de atuação já se definiam e eles buscavam efetivar as parcerias e funções de cada membro.

A sobrinha, missionária, junto com o marido e filhos, estavam com o mesmo sonho há algum tempo, intensificado após o marido vivenciar um curso agroflorestal no cerrado. Suas ideias fortaleciam a decisão deles como algo certo e sem volta. A prima, bióloga, que por anos trabalhara em uma empresa, não demonstrou nenhuma hesitação ao ser convidada para criar a estufa, embrião para mudas da horta e de árvores para reflorestar o cerrado, devastado pela cultura do pasto. O estudo da implementação para plantas aromáticas e chás entraria em momento posterior.

O sobrinho, engenheiro mecânico como o tio, foi se apaixonando aos poucos, à medida que o entusiasmo dos outros o contagiava, e passou a ler tudo o que lhe caía nas mãos sobre o assunto. Sempre analisava possibilidades que poderiam se originar dali. Gostava de criar, fazer cálculos, estimativas e, com o cunhado e o tio, elaborava um projeto de cerca viva na tentativa de neutralizar o odor da granja do vizinho. A empresa que criara com um amigo estava se expandindo e abrindo filial na cidade, algo que facilitaria sua participação devido à proximidade da fazenda. Sua esposa, administradora de empresas, estudava a possibilidade de auxiliar na gestão do negócio, algo que faria de sua própria casa onde poderia também estar mais presente na vida dos filhos.

A integrante que mais surpreendeu o grupo foi a irmã; normalmente não gostava de ir à fazenda, implicava com os mosquitos, com o cantar sem horário dos galos, com a poeira, com o calor e a lista sempre poderia aumentar. Algo começara a mudar depois que fez um curso online de agroecologia. A princípio era para aprender assuntos novos, estimular a concentração e a memória, mas, com a aposentadoria do trabalho de técnica de enfermagem no posto de saúde, decidiu que gostaria de fazer parte do empreendimento. Seria responsável, junto com a nora, pela organização e parcerias de pontos de venda dos produtos.

O irmão apareceu bem mais tarde; era o vizinho, dono da granja. Fora convidado logo no início das reuniões, mas agradecera, pois, a granja e o trabalho como advogado tomavam todo seu tempo. Mas naquele dia chegou com a fisionomia suave, alegre até, e explicou que estivera em reunião a semana toda com os advogados da empresa que comprava os suínos. Estava exausto mas sentia-se feliz pois, apesar do alto investimento no início, já o recuperara.

Há alguns anos planejou algumas mudanças após o consumo de carnes ter caído consideravelmente no país; em sua maioria causadas pelo o aumento de casos de doenças crônicas e câncer. O índice de hormônios e antibióticos ministrados aos animais, permitido no país, fechou portas de negócios com outros países, o que prejudicou inúmeros produtores. Os filhos, médicos, já haviam mostrado a ele as evidências científicas de estudos realizados em inúmeras universidades de todo o mundo. Foi ficando cada vez mais incomodado com a situação até decidir interromper o negócio que perduraria ainda por seis meses.

A conversa ganhou novo fôlego com as opiniões sobre o destino dos galpões onde atualmente ficavam os três mil suínos: produção de farinha de mandioca, doces, geleias; viveiros de mudas para serem comercializadas; estocagem de sementes; produção de queijo fresco e mozarela; molho de tomate e temperos e, as ideias se multiplicavam. Poderiam convidar a esposa do cuidador de porcos como responsável pela produção nos galpões. Era cozinheira de primeira e o molho de tomate dela não tinha concorrente por ali. Os pais, sempre convidados a estarem nas reuniões, tinham suas opiniões muitas vezes acatadas e achavam graça no entusiasmo dos filhos e netos. Como era bom, vê-los ali, juntos, com projetos e sonhos para o futuro!

A noite chegou embalada pela conversa animada do grupo. Enquanto tomavam vinho na varanda, o caldo de moranga fervia e a mãe fatiava o pão, deixando-o sobre a mesa do lado do queijo ralado e do cheiro verde recém colhido da pequena horta na porta da cozinha. Naquela noite todos ficariam por ali. Alguns dormiriam na sala, no escritório e no quarto menor e os outros iriam para a casa do irmão que acomodaria bem o restante da família. Sentados na varanda com as luzes apagadas, o silêncio foi tomando conta. Era um silêncio bom, colorido, alegre, povoado de desejos. Cada um ruminando suas ideias, suas vontades e a vida ficando assim, intensa, leve e vívida. Na mata uma coruja piou.