• Ana Paula Vilela

Cinzenta é a Hipocrisia


Imagem Unsplash por billow926

Texto produzido no Ninho de escritores @ninho.de.escritores @talesgubes



Tempos de ar preso De ar que falta

Lá e dentro de mim.

Palavras soltas não me definem

Nem frases

Nada consegue definir quem sou neste instante.

Eu não me defino!

Letras de ponta cabeça

Pretas e brancas

A cor se esvai nesse emaranhado

Nessa teia que teima

Nessa teia que se enrosca em mim

Em você,

Em nós.

Palavras desconexas

Desequilibradas,

Confusas e frias

Como esse piso de pedra

Bonito, embora frio

Frio, apesar de

Bonito.

Sentimento indefinido

Sussurros

Murmúrios

Até gritos

O silêncio não encontrado

Necessitado!

O pulsar do órgão

Pontada

Calafrio

Permissão

Omissão

Devaneio ou clareza?

Será clareza que teimo não enxergar

E no óbvio me perco?

De que lugar é a minha fala?

Há alguma escuta?

Há escuta para o que luta, silencia e grita?

Para o que é assassinado neste país diariamente?

Quem escuta?

A falta de empatia

A injustiça social

Escravidão contínua

Opressão

O que é real

O que se denomina normal

Marginalizados

Descriminados

Reivindicando a cada dia,

Todos os dias

Suas existências.

Seu direito de ser

De pertencer

De serem vistos em suas humanidades

De viver!

E na casa da família

De classe média e alta,

A culpa de transmitir o vírus

Recai sobre o elo fraco

E nesta hora

Fica claro o preconceito.

Aquele que não limpa a própria sujeira

Não olha os filhos

Não faz sua comida

E precisa de quem o faça por ele,

Delega

Ao transporte público diariamente

Correndo risco,

O outro.

O branco imaculado,

Qual espuma abundante do sabão

Escorre

Da ponta ao cabo

A faca

A lâmina afiada

Qual língua ferina e mentirosa

Mancha a espuma

E o que parecia ser, já não é

Nunca foi.

Com o discurso hipócrita

Engana quem quer

Ser enganado

Repetem palavras e discursos rasos

Pobres, superficiais.

Não sentem

Nada sentem

Em seus sonos injustos

Só repetem.

Desafio

Agonia

Taquicardia

Espera

Erro

Ignorância

Cegueira

Acerto.

E de cinzento

O dia nasce,

O céu de tons laranjas

A leveza paira no amanhecer

No quintal o orvalho

Sobre a branca flor da mirra.

Nestes segundos de pura contemplação

O dia é claro e há silêncio

Silêncio margeado pelo canto de pássaros.

Instantes.

O branco e translúcido

Do amanhecer no outono.

O céu azul

Transforma-se em anil

De anil

A escuridão

A negra noite

Medo

Pânico

Sombras

E a desconexão

De letras soltas

Palavras e frases sem sentido

Os olhos turvos

Com lágrimas presas

Presas como se sentem

Em suas vidas vigiadas.