• Ana Paula Maciel Vilela

Descartáveis

Updated: Aug 5, 2021




Imagem Unsplash por Bruno Thethe



Sacolejando dentro do ônibus com o estômago embrulhado e as têmporas latejando, temia sufocar e não conseguir chegar em casa. A carne que descongelava enrolada na camiseta dentro da sacola de pano, apanhada furtivamente do freezer ao acabar o expediente, molhava suas pernas. Imaginou-se assentada em um banco da praça com o vento fresco da noite desalinhando seus cabelos e provocando arrepios em sua pele. Por instantes sentiu-se melhor.

Desceu no ponto final com mais algumas pessoas, todos com o cansaço do dia estampado em suas faces. Com o olhar se despediram e se arrastaram para suas casas para finalizarem a longa jornada de seu dia antes que pudessem, enfim, descansarem seus corpos moídos nas camas estreitas. Por mais uma noite, após passar todo o dia na casa onde trabalhava há oito anos, retornava exausta, assim como os demais passageiros daquele ônibus, todos tratados como objetos, uma grande massa humana de trabalhadores na grande cidade.

Diariamente apanhava o ônibus às seis horas da manhã na esquina de sua casa para só conseguir chegar às oito no trabalho, depois de caminhar meia hora de onde descia, antes do ônibus mudar o itinerário. Recordava-se daquela manhã e ruminava quando havia se acostumado com tanta humilhação, quando havia parado de pensar no que poderia fazer de ruim para calar aquela mulher ou quando sua alegria e sorriso ficaram perdidos em um lugar onde ela jamais voltara a encontrar. Ao tocar a campainha, antes mesmo da porta ser aberta pela patroa, já ouvia as reclamações diárias de que chegava sempre tarde. Dona Letícia não se cansava e a ladainha a seguia até a porta do banheiro externo onde se trocava. Encostada no batente se controlava para reprimir o desejo de bater a porta na cara da patroa. Socorro não se dava mais ao trabalho de explicar. Aguardava enquanto o tempo passava e suas pernas doíam até que, por algum milagre, dona Letícia saía.

Chegou do interior depois de cuidar da mãe por anos, vítima de um derrame, sem a ajuda dos irmãos. No início marcava reuniões com a família, guardava todas as receitas médicas, recibos e contas e até anotava o que de mais importante acontecera nas últimas semanas, tudo com a esperança de que percebessem que precisava de ajuda, que precisava e queria continuar seus estudos. Tinha sonhos. E muitos. Aos poucos, desistiu das conversas, cuidava da mãe com dedicação aceitando o que o destino lhe reservara, mas, quando a mãe faleceu, aceitou o convite da amiga que já trabalhava na capital e decidiu ir embora.

Recolheu o terço com o qual a mãe era apegada e fazia suas orações, a fotografia amarelada onde estava no colo da mãe e ao lado da avó e o forrinho bordado que ocupava espaço no criado mudo, tão mudo como a mãe nos últimos meses e que mostrava uma casinha cercada de árvores e flores, bordado por ela no tempo em que a vida ainda não havia mostrado que poderia ser bem pior do que tudo o que já conhecia. Ficou com a amiga até conhecer Dona Letícia, que precisava de uma empregada e não se importava de ser preta, como disse a amiga, desde que fosse limpa e trabalhasse direito.

Ser tratada com desprezo por ser negra não era novidade na vida de Socorro que, desde criança, sentia que não era igual às filhas da vizinha e que, na igreja, por mais cedo que chegasse com a família, só poderiam ocupar o último banco do lado esquerdo, atrás da pilastra e de onde mal dava para ver a imagem do Cristo crucificado. Ficava perdida em devaneios pensando no Cristo que teve destino pior, que nem assentar podia. E ainda rezavam para ele, pediam coisas e mais coisas que o coitado, naquele sofrimento todo, não conseguiria atender. E, Socorro criança, nem depois de adulta conseguia entender como as pessoas conseguiam ser tão ignorantes por não entenderem o significado daquela imagem, pois continuavam açoitando, desprezando e humilhando as pessoas como fizeram com Cristo. Mas era assim e assim continuou sendo até aquele dia em que desceu do ônibus, e ao lado do amigo Benevides, caminhou para sua casa.

Seu Benevides foi caminhando com a cabeça baixa. Passou o dia com a boca seca e o estômago doendo, para quê, pensava ele. O desconto no salário do mês não lhe descia pela garganta. Esse pessoal trata a gente pior que muito bicho. Como eu podia ter ido, meu Deus, vomitando daquele jeito? Como levar o atestado no mesmo dia se eu não conseguia nem sair de casa? A humilhação de, mesmo depois de quase vinte anos de casa, ser tratado como moleque e mentiroso pela moça do departamento pessoal, se somava a tantas outras na sua vida. O corpo cansado já conhecia de cor o caminho para o barracão. Já chegava na idade de aposentar, que jeito? Não podia deixar o emprego. Mal ganhava para seu sustento e da esposa, que o esperava do lado de fora. Amor ali não faltava. Tinham essa riqueza.

Alguns metros adiante Socorro empurrou o portãozinho de ferro rente à calçada, subiu alguns degraus e alcançou a porta de madeira, a única coisa robusta por ali. A voz alterada da patroa ressoava como um pesado gongo em sua cabeça quando lhe disse que não teria como acertar com ela mais um mês de trabalho. Com descaso e desdém, como se aquilo não significasse grande coisa. Ela poderia esperar, não é, ou preferia ficar sem emprego como tanta gente neste país? Há quatro meses não recebia nada! A despensa vazia. As contas sem pagar em cima da televisão que já quase não ligava porque preferia o silêncio das poucas horas onde idealizava que vivia ainda no sítio com a família; ela criança com os pais, os irmãos e a avó Santa, mulher sábia e benzedeira de primeira grandeza.

Assentada com um copo de água entre os dedos trêmulos, ouvia os conselhos da avó, sua voz doce, seu sorriso, nas mãos um ramo de alecrim para revigorar e ajudar a resistir a esse mundo de tamanhas injustiças. Mastigava o último pedaço de pão que lhe descia à força pela garganta para tapar o buraco da fome, da indignação, da humilhação. Sentiu as lágrimas descerem pelo rosto, molhando suas roupas puídas, os sapatos velhos, a poltrona, o chão, as paredes descascadas, o quadro do coração de Jesus, a fotografia dos pais novos, no dia do casamento...Sua dor molhada foi ocupando sua casinha, suas coisas pobres, seu corpo cansado e, antes que seu suspiro se tornasse o último, sorriu para a avó que a esperava com os braços abertos logo ali, do lado da janela e do vaso de espada de São Jorge, o mesmo que os pais tinham na porta da casa de sua infância.

Estendeu a mão a ela e caminhou com leveza em direção à porta dos fundos, passando pelas roupas dependuradas no varal desde a cinco da manhã, pouco antes de sair para trabalhar. O vento soprou nos seus cabelos, fresco, revigorante como o aroma do alecrim que a avó segurava.