• Ana Paula Maciel Vilela

Impermanência



Imagem Unsplash por David Straton @navyguy


Desde que planejamos o pós-doutorado na Alemanha, nutri o desejo de conhecer a região da Provence e estar lá, em meio às plantações de lavandas. Sabia que teríamos a oportunidade de fazer alguns passeios e aquele era meu sonho. O taxi nos levou do aeroporto ao pequeno prédio onde moraríamos por um ano na cidade da Alemanha e, assim que desci vislumbrei, no pequeno jardim, uma touceira enorme e florida de lavandas e me senti bastante feliz. Os dias transcorreram com descobertas e desafios frente a tanta diferença cultural e, embora tenhamos estudado a língua durante o ano anterior, era muito diferente estar inserida na vida da cidade; entender e se fazer entender. O apartamento era ótimo: arejado, a luz do sol entrava pelas janelas da sala no período da tarde iluminando todo entorno e levando vida às floreiras repletas de gerânio que enfeitavam as janelas. A cozinha, pequena e bem equipada, me enchia de surpresas com aparatos e utensílios que desconhecia. Tinha uma pequena janela com uma cortina de voal que deixava ver o pátio dos fundos e um conjunto de prédios. Tinha uma árvore imensa e, preso em seus galhos, um balanço. As crianças habitavam ali quando o tempo ajudava e era gostoso ouvir suas vozes e risadas, embora não compreendesse uma única palavra. Nos primeiros meses os dias eram assim, repletos de aventura porque além das descobertas dentro de casa, os supermercados, feiras livres e biblioteca faziam parte dos estímulos, era um verdadeiro banho para os sentidos. O curso de alemão havia começado há um mês e me dedicava bastante tentando compreender a lógica da gramática, a diferença dos substantivos, feminino, masculino e neutro, a entonação, o sotaque dos colegas de todo canto do mundo. Era um desafio. Resolvi que participaria do programa de primavera oferecido pela escola de línguas. Seriam quatro semanas e o programa envolvia se hospedar na casa de locais e ajudar nas tarefas domésticas ou no campo em troca de hospedagem e comida e escolhi uma cidadezinha ao norte, muito bonita, área rural onde trabalhavam com plantações de flores, incluindo…lavandas! As semanas que antecederam foram agitadas pois deixei comida pronta congelada para o marido jantar em algumas noites, comprei roupa e sapatos adequados e estudei muito os hábitos e costumes locais para que tudo corresse bem. Estava muito excitada com a viagem e, principalmente, por ficar tanto tempo longe do meu marido, fiel intérprete quando saíamos às compras ou para passear. Finalmente o dia chegou e a viagem de trem com os colegas foi bastante animada. Iriamos juntos para uma cidade central onde nossos anfitriões nos buscariam na estação. Éramos oito pessoas participando de programas em área rural. O casal Dümmer, muito simpáticos já aguardavam quando o trem parou na estação movimentada. Para minha sorte o Sr. Olaf, fez questão de que os tratasse pelo primeiro nome, falava também inglês devido ao tempo que morou na Inglaterra com a tia quando ficou órfão, enquanto Helga, sua esposa, falava só o alemão. Senti meu estômago gelar ante a perspectiva de não compreender nada naquelas semanas! Recostado na camionete o filho Richard nos aguardava com a carroceria repleta de flores variadas e coloridas. -Me desculpe não ter ido receber você, não poderia deixar as flores sozinhas -disse com um sorriso. - Vamos passar no mercado para fazer a entrega e aproveitar assim a viagem. O mercado era como todo mercado que já tinha conhecido, aromas variados e muita cor espalhados em muitas barracas: tecidos, aviamentos, frutas, legumes, hortaliças, quitandas, plantas, flores, condimentos, temperos, peixes e outros animais expostos para atrair os fregueses. O trajeto para o campo foi de cerca de quarenta minutos, com Richard descrevendo a paisagem e como viviam por ali. Reconhecia algumas palavras, tentava entender o sentido da frase, mas o esforço me causou uma leve dor de cabeça. A casa surgiu após uma curva, ladeada por muitas árvores e, ao longe, avistava-se as estufas das flores. Tudo maravilhoso! Meu quarto ficava na parte alta da casa, era tipo um sótão, porém com uma clarabóia que iluminava tudo, não deixando nenhuma chance para qualquer um que quisesse dormir além do horário estabelecido. O espaço abrigava a cama, criado mudo e sobre ele um arranjo de flores naturais, um guarda roupa pequeno, cadeira e mesa com bloco de anotações e canetas de frente à janela com a vista para um campo florido e uma poltrona muito confortável com uma luminária. Muito aconchegante. Ouvi um barulho de móvel sendo arrastado vindo do quarto ao lado e depois um silêncio seguido de uma música suave. Me senti curiosa. Parecia ter mais alguém por ali. Na manhã seguinte, às cinco da manhã o relógio tocou e o dia de trabalho teve início. Tomaram um líquido quente e espumoso, que nem precisei saber do que se tratava, pois, o aroma delicioso dispensava qualquer informação e, enquanto me dirigia para as estufas com pai e filho, fiquei sabendo que o café da manhã seria servido em duas horas e que na parte da tarde ajudaria Helga com as tarefas domésticas. Na primeira estufa me encantei com a profusão de cores e aromas. Segui as recomendações ensinadas pacientemente por Richard que demonstrava como manipular as mudas menores e não percebi o tempo passando. Logo fui chamada para tomarmos o café da manhã, um verdadeiro banquete, pão quente recém-saído do forno, torta de maça, manteiga, geléia de morangos, chá, café e um queijo delicioso. Alguns dias se passaram, o trabalho era tranquilo, ajudava com as estufas e à tarde fazia tarefas variadas dentro de casa como limpeza ou cuidar das roupas. Às vezes, quando estava em meus horários de pausa descansando no quarto, ouvia barulho e conversas no quarto ao lado, muitas vezes me deparava com uma bandeja com comida ou pratos vazios em frente a porta vizinha. Estava tudo muito perfeito…até então! Acordei no meio da noite com um barulho muito forte, seco, como se algo tivesse caído. Olhei pela janela e vi um vulto no chão. Senti um arrepio subindo pela coluna ao ouvir os gritos de Helga que chegava correndo na companhia do marido. Alguns minutos depois bateram na porta e, ainda trêmula, abri. Sra Helga, bastante emotiva, fez sinal para eu descer e na cozinha Richard me aguardava, com o rosto pálido enquanto os pais recebiam a polícia no pátio. -Meu primo, Joanes, morava conosco há alguns anos. Já tinha tentado suicidar três vezes. Ficava em seu quarto a maior parte do tempo. Presenciou há exatos três anos o assassinato dos pais durante um assalto na loja de conveniência do posto de gasolina. Nunca superou. Os dias seguintes foram tumultuados e o trabalho, dobrado. Tentei ficar mais tempo para ajudá-los, mas a coordenadora do programa preferiu encerrar antes devido ao incidente, o que me deixou aliviada. Queria voltar para casa. Desisti do passeio na Provance, embora continue gostando de lavandas. Frente à impermanência da vida, hoje procuro não me apegar a nada, muito menos aos desejos. Uma surpresa a cada dia.


Texto produzido junto ao Ninho de Escritores

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