• Ana Paula Maciel Vilela

Memórias

Updated: Dec 7, 2020

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Foto Unsplash por Debby Hudson @hudsoncrafted


O telefone tocou de forma insistente, porém, desta vez, ninguém atendeu.

A casa emitia burburinhos fora do habitual. Durante toda a manhã foi um entra e sai e o telefone não parou de tocar nem por um instante sequer. Senti falta dela. A dona da casa.

Depois de ouvir com mais atenção, conclui que a partir dali, seríamos só nós dois. O tempo passou e ficamos, ele e eu, de forma tranquila, já acostumados com a ausência física dela porque podíamos senti-la sempre presente. Muitas e muitas vezes ele se assentava em uma ponta da mesa e contava para ela como tinha sido o dia, quem tinha encontrado na esquina do pecado, como tinha sido no Beira Rio e as novidades do neto que tinha ligado de Belo Horizonte. Falava, gesticulava, sorria e depois permanecia muito tempo em silêncio fitando a cadeira vazia. Seus olhos passeavam pela cozinha que manteve exatamente como ela gostava. Sobre o armário a bandeja forrada com um de seus crochês, com as xícaras aguardando quem aparecesse, a cristaleira com todas as peças importantes guardadas, os panos de prato, o pano sobre o fogão... Na sala as almofadas, quadros e enfeites, tudo como se ela mesma tivesse acabado de ajeitar. E os detalhes se repetiam em cada cômodo que ele fazia questão de cuidar porque sentia que a alegrava.

E assim a vida continuou no mesmo ritmo por mais de uma década, até que o silêncio habitou os espaços.

Quando cheguei em 1959, a rua era de terra batida e a casa ficava na parte alta da rua, desnivelada pela presença da pedreira logo no final daquele quarteirão. A economia da cidade se baseava no cultivo do arroz e a renda da casa era a do trabalho dele com chofer de praça. Fazia corridas na cidade e pequenas viagens. Ela era só sorrisos, e, encantada com a minha presença, abria, fechava, ajeitava tudo lá dentro, a dona da casa.

A vida se tornou mais alegre e movimentada com os filhos e, anos depois, os netos. Era uma casa viva. Um entra e sai de parentes e familiares que passavam na ida ou volta do trabalho, da escola ou quando precisavam resolver algo na área central, já que ficávamos nesta área, perto de tudo. Sempre eram recebidos com café, quitanda e uma boa conversa.

Foram cinquenta e três anos de convivência e, agora, silêncio e vazio.

A casa começou a perder os móveis, quadros, louças; uma tristeza só, e nós, que convivíamos com uma tranquilidade até invejável ali, separados de forma abrupta, cada um com um novo destino.

A bisneta ainda era bem pequena e já expressara o desejo de que um dia eu seria sua. O que foi lembrado e junto a algumas louças, enfeites, porta retrato e filtro de barro, saímos em viagem.

A rua, agora asfaltada, casas e mais casas para todo lado, movimento de pessoas, carros e muito barulho, tudo tão diferente!

Por algum tempo fiquei ainda na cidade e logo meu destino foi ser guardada em um canto da lavanderia da fazenda do avô da menina, coberta e protegida.

A viagem não foi longa, mas o neto da dona da casa e eu sacolejamos muito até chegar ao destino, ele muito cuidadoso para que nada me acontecesse e que estivesse bem quando a filha pudesse me colocar para funcionar novamente.

Um dia, sem que desconfiasse, fui transferida para uma casinha ali mesmo, na fazenda, próximo ao curral, e perdi toda a proteção. Fui manuseada sem muito cuidado por um e outro peão que prestava algum tipo de serviço. O que era maravilhoso ali era que grande parte do tempo eu ficava sozinha e passava horas recordando a vida de outrora, as histórias da família vividas e ouvidas, as reuniões em volta da mesa da cozinha, os pratos cheirosos que ela preparava como os pasteis fritos, os mafufos, quibes fritos, carne de porco assada e o pão de batatinha, famoso na família; uma variedade de aromas e sabores. Casou-se aos dezessete anos, antes mesmo de concluir o curso normal e era muito habilidosa com os trabalhos manuais. Podia ouvi-la, arrastando os chinelos para cá e para lá até o dia que entrou pela última vez na cozinha, tomou o remédio recomendado pelo médico para o enjoo que teimava em persistir e foi se assentar na varanda para terminar o crochê. Não terminou.

No caso dele, meu companheiro dos últimos tempos, foi gradual. Um dia sentiu-se mal, uma tontura ao subir o degrau da cozinha e caiu de joelhos. Vi seu braço sangrando, ligou para filho e ficou ali quietinho e gemendo, conversando com ela até o filho chegar. Assustou-se e, embora não tenha se machucado seriamente com a queda, a vida nunca mais voltou a ser a mesma. Caiu novamente e o ouvi, em seus intermináveis diálogos com ela, que sua saúde não estava boa, para ela pedir lá a permissão e vir logo buscá-lo. Passou a circular menos, não mais ficava sozinho porque o equilíbrio lhe faltava e não mais escondia das pessoas as conversas que tinha com todos que já não mais estavam por ali, familiares falecidos há anos, até com a mãe conversou muito na última vez que o vi. E a tal permissão não demorou a chegar.

Certo dia, mais uma viagem longa desta vez, sol escaldante e horas até chegar onde achei ser meu destino final. Não era. Muitas ali da minha geração, várias cores e modelos. No silêncio da noite compartilhávamos histórias da vida, lembranças, memórias felizes e outras, nem tanto.

Hoje estou na casa do neto. Uma casa feliz, mas não tem a vida de outrora, o entra e sai de pessoas embora sinta que me consideram e valorizam muito meus primeiros donos.

Fico na sala, lugar não usual para uma geladeira, e já vi por ali a máquina de costura e a floreira que ocupou por anos a mesa da cozinha da dona da casa, onde os nomes para o sorteio do amigo invisível e os recados eram colocados até que, enfim, chegasse o natal.

Sinto tranquilidade aqui. Há harmonia e respeito e as pessoas valorizam as coisas antigas e simples da vida.

Hoje tocou jazz por toda a tarde. Enquanto a dona da nova casa escrevia, às vezes dirigia a mim um olhar sorridente, abaixava novamente os olhos e voltava a escrever.

No pinheiro do jardim, em frente à janela da sala, a algazarra dos pássaros tomava lugar.

Chegou o entardecer de mais um dia.