• Ana Paula Maciel Vilela

Uma Manhã

Updated: 2 hours ago


Imagem Unsplash por @jammypodger7470


Desliga o despertador e vira-se de lado para assentar. Permanece assim por alguns minutos alisando o tapete com a ponta dos dedos dos pés.

Procura dentro de si a coragem para começar o dia.

Boceja. Espreguiça. Coça a cabeça.

Caminha, enfim, em direção ao banheiro e observa a espuma que se forma com a urina que cai ruidosa no vaso sanitário. Despe-se de forma automática e observa a imagem no espelho: magro, de uma palidez que mais parece um ser adoecido, os cabelos precisando de um bom corte, olhos apagados, opacos. Desvia o olhar se sentindo invadido.

Invadido por si mesmo como se não se reconhecesse mais.

Fecha a porta do box, gira a torneira e a água morna cai em suas costas. Sente um arrepio de prazer.

Com um passo atrás sente a água lhe cair na cabeça, desce pela nuca, rosto e suspira enquanto lágrimas salgadas se confundem com a água do chuveiro.

Sente toda a sujeira saindo do seu corpo cansado, rompendo a pele, escorrendo pelas pernas, sujando o chão até ser tragada pelo ralo.

Por momentos se permite o abandono do controle, da rigidez e das cobranças e a sensação de fluidez e limpeza o invade, chega a sentir uma pitada de alegria.

Apanha o sabonete branco, leva às narinas e inala o aroma delicioso. Fecha os olhos para sentir melhor enquanto, devagar, o desliza pelo peito, axilas, pescoço, glúteos, pênis, pernas e pés. Leva as mãos na cabeça e esfrega até sentir a espuma se formando entre os dedos. Massageia a cabeça e, mais uma vez, é inundado com uma sensação de bem-estar há muito experimentada.

Permanece ali, desliga o chuveiro quando percebe que toda espuma se esvaiu pelo ralo e observa as gotas que pingam de forma alternada de seu corpo até que cessam.

Apanha a toalha, se enxuga sem pressa ouvindo o compasso do próprio coração que parece ressoar também em sua garganta. Caminha para o quarto e olha em direção ao cabideiro onde a roupa, escolhida na véspera, aguarda.

Veste a cueca preta e se assenta na beirada da cama para calçar as meias amarelas. Adora suas meias coloridas.

Sente-se leve de uma forma agradável após o banho especial e resolve que sairá um pouco mais cedo de casa para passar na cafeteria antes do compromisso agendado com o editor do seu livro. Seu primeiro livro a caminho da gráfica! Não tem razão para duvidar da verdade daquele momento que, enfim, chegou.

Sim, será bom sair depois das últimas semanas de isolamento social, agora que a pandemia está controlada e quase toda a população vacinada.

Sorrindo levanta para apanhar a calça quando sente algo sob seu pé lhe tirando o equilíbrio. Enquanto procura se agarrar ao cabideiro enxerga a bolinha que usara na noite anterior para massagear os pés doloridos e que, por descuido, não apanhara do chão para guardar no local costumeiro. O corpo em queda encontra o criado mudo que recebe a pancada de sua cabeça, na quina.

Ainda é capaz de perceber, com os sentidos todos aguçados naquela manhã, o calor do sangue que escorre e mancha de vermelho o tapete que há bem pouco tempo acariciava com a ponta dos pés.

Enquanto o ambiente escurece, ouve bem ao longe o som do seu celular.



Texto produzido junto ao Ninho de Escritores

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