• Ana Paula Maciel Vilela

Véspera


Imagem Unsplash por @ed_leszczynski



Amanheceu chovendo. Há algum tempo aguardo para admirar a chuva da minha janela. A vista do quarto e da sala são especiais para o jardim com muitas plantas floridas nesta época e para as árvores na rua. O texto, passeando por minha mente encontra, enfim, o papel.

Hoje ouço a chuva enquanto procuro frear os pensamentos que, teimosos, brincam de vai e vem e permanecem no amanhã.

Muito jovem, com filhos pequenos, recebo e convivo com o diagnóstico, por muito tempo com negação não pensando muito no fato para que não me atrapalhasse ou se transformasse em uma barreira para tudo o que eu planejava fazer. Com o amadurecimento, muito tempo e certezas depois, comecei a aceitar, a cuidar com mais carinho de mim mesma, a falar no assunto.

Meu marido disse certa vez para alguns amigos que uma das coisas que ele admirava em mim era de que sou uma pessoa que acredita sempre que tudo vai melhorar. Vejo o lado bom das coisas. Sou assim, a esperança me habita. Acredito.

A cirurgia, suspensa três vezes em tempos de pandemia e hospitais cheios, será amanhã.

Ouvimos várias experiências positivas de como a cirurgia funciona. Mas, e se não funcionar para mim?

Passei a semana organizando a casa, congelando comida, arrumando armários, planejando tudo. Tudo o quê? Penso que falta aquela carta com instruções finais que por muito tempo insisti em deixar quando viajava sozinha falando dos meus desejos e amor por cada um deles, deixando meus pertences a um e outro. Mais uma forma de querer controlar tudo. Até o “e se”...

Volto a me apoiar neste instante que é real e único acreditando que em breve darei continuidade a essa história.

A chuva cessou.

Gotas espaçadas pingam dos galhos do pinheiro.

Espaçadas como minha respiração.