• Ana Paula Maciel Vilela

A Modelo

Updated: Dec 10, 2020




Foto Unsplash por freestocks @freestocks



A notícia de sua chegada causou o mesmo efeito de sua última visita.

O ônibus de São Paulo parou na estação às seis da manhã e assim que Heitor pisou na plataforma suja e esburacada, virou notícia. De tempos em tempos aparecia para visitar seu filho, casado com a tia da menina.

Cidade pequena, pacata até para aquela época, qualquer acontecimento virava conversa nas esquinas, no final da missa dominical, no único salão de beleza.

Na casa da avó, à noite, sua simpatia cativava a todos e as histórias de São Paulo, aumentadas ou inventadas, não importava, prendia a atenção até dos mais novos.

De pé, com os primos mais velhos, a menina o encarava sem piscar. Desde que ele falara que ela deveria ser modelo em São Paulo, não parava de sonhar com aquilo. No fundo, o que queria mesmo era ser chacrete, dançar nas tardes dos programas de auditório da TV, mas, se um morador de São Paulo achava que deveria ser modelo, era isso que deveria ser.

Ser modelo era mais glamoroso, usaria roupas lindas e salto alto, maquiagem e poderia ficar famosa e morar em qualquer lugar do mundo!

Depois do jantar, enquanto serviam a sobremesa, Heitor se aproximou e perguntou se já era modelo. Com sorriso sem graça respondeu que ainda não. Mas deveria, deveria...respondeu ele se afastando pelo corredor.

Por alguns anos a menina sonhou com isso e passou a se sentir mais alta, bonita e especial que as amigas, até descobrir que ele era aposentado, não trabalhava na TV e nem era da área de moda. Enfim, era uma pessoa comum e normal como qualquer um deles.

Teria sido mais fácil, talvez, sonhar ser chacrete.