• Ana Paula Maciel Vilela

A Tormenta

Updated: Sep 12



Imagem Unsplash Lucy Chian @shlucy



Se agitado é o sono,

Se pela manhã, em desânimo e desalento, o corpo teima não se mover,

Avisto pela janela do quarto,

A tormenta.

Disfarçada atrás dos galhos do pinheiro,

Espreita.

A tormenta que se avoluma

Com ruídos, choros e desespero,

Silencia.


Em outro tempo

Tormenta irmã me alcançou,

Mesclada de memórias e risadas

Aos poucos, ruidosa se modificou.

Em tempos mais remotos

O som do salto do sapato,

Alto, no corredor

Passos apressados

O som da porta que fechou.


A rotina, não sabida, tão segura!

O carro cheio

Filhos e vizinhos

Em direção ao colégio

Conversas alegres

As aulas do dia, boas ou ruins

Intervalo, recreio, jogo na quadra, suor

Vida

A rotina. Não sabida. Saudosa.


Trabalho, trabalho e trabalho.

Assim traduzia-se

A importância de sua vida.

Ali esquecia os infortúnios,

Esquecia o dia a dia,

Esquecia as mágoas,

O casamento,

As traições,

O que almejava, mas não se atrevia.


E as horas passavam

Os dias eram vividos, envoltos

Em aulas, livros, cursos.

Os filhos iam crescendo

Com o cuidado de que nada lhes faltasse.

Nada.

Pouco ficava em casa

Atarefada entre a vida de professora e de estudante

Da faculdade chegava tarde.


Tempo para pensar?

Conversar?

Resolver as coisas?

Depois.

E o depois se transformou em dias

Meses, anos

Transformou-se em uma vida

E não deu tempo.

Tempo de ser feliz.


E quando as aulas foram retiradas,

Quando o que dava sentido à sua vida

Desapareceu,

Quando não mais precisava armar o despertador

Se arrumar, preparar o material

Tomar café com a família e ver todos no carro mais um dia,

Quando o ar lhe faltou,

Ficou mais fácil

Esquecer.


Passou, aos poucos, a não lembrar.

Confundia-se.

Repetia.

Até dos livros

Ah! Até dos livros já não queria mais saber.

Um dia me disse

“Das coisas ruins que vivi,

prefiro não mais lembrar”.

Mas, e das boas?


E o outono chegou

Hoje uma lua cheia linda ilumina tudo lá fora,

Mas uma nova tormenta é vista pela janela.

Ela se esconde atrás

Dos galhos do pinheiro.

O recolhimento se faz necessário.

Para nos refazermos em tempos de pandemia,

Tempo em que o mundo mudou,

Tempo da aprendizagem necessária que não acontece.


Quando observo a lua

Percebo a nova névoa que, aos poucos,

Se aproxima.

E em mim dói o estômago

Dói a cabeça

Dói o coração

E a angústia vem devagar

O sono fica inconstante

Inconstante como tudo


A fala dele é a mesma e me assusta:

“Prefiro esquecer as coisas ruins que já vivi”.

E penso, mas pai, e as boas?

Me aproximo da janela

Sinto a brisa se transformando em vento

O vento se fazendo vendaval

E em mim, fora do lugar os batimentos cardíacos,

A pressão arterial que, desorientada,

Procura aquietar-se.


A tormenta nos ronda.

A tormenta é o meu sufoco,

Uma vez mais.

Consultas, exames, testes, medicamentos.

A tormenta tem nome e parece querer abraçar ambos.

Enquanto um diagnóstico não é definido, os dias passam.

Ele levanta cedo, se arruma, vai para o sítio.

Ainda independente, cuida da sua vida,

Entre um esquecimento ou outro.


E rega suas plantas,

E sorri para as galinhas d’Angola

Enquanto o rodeiam para receber o milho.

Vai ao pomar

Apanha alguma fruta

Lava no tanque.

Habita seu corpo, sua casa

Sabe quem é.

Ele sabe quem ele é.


Enquanto a névoa se forma ao redor,

Os gorjeios, relinchos e mugidos, ouve.

Identifica. Avista no galho o pássaro preto de uma perna só,

Tão antigo por ali e pensa, será o mesmo?

Deitado na rede contempla as flores

Os hibiscos coloridos, os ipês

Todos plantados por ele.

Fecha os olhos e descansa

Pensando em sua vida.


Meu pai pensa no que vai fazer amanhã,

Enquanto a tormenta se aproxima.



Texto produzido junto ao Ninho de Escritores

@ninho.de.escritores

@talesgubes