• Ana Paula Vilela

A Visita





O vento soprou forte por cerca de uma hora derrubando vasos, batendo as portas dos galpões, assustando cavalos e galinhas. Era a primeira chuva depois de uma primavera muito quente e não chegou mansa como eu gostava de assistir da varanda.

Pouco antes das seis da manhã a chaleira apitou e coei meu café. A mesinha, rente ao janelão de vidro, estava posta com uma fatia de melão, granola e duas fatias de pão caseiro com manteiga, feita ali mesmo por Maria, esposa de nosso ajudante. Tomei um gole do café forte sentindo o aroma e o calor da xícara em minhas mãos, aquela sensação de conforto e bem-estar que sempre me acompanhava nestes momentos.

Gotas da chuva da madrugada ainda pingavam das árvores; as galinhas e galos já ciscavam no galinheiro. O galo Antunes cantou logo após Agnaldo, mostrando que ali o espaço era disputado pelos dois. Naquela manhã acordei nostálgica, com uma sensação diferente que não conseguia precisar. Meu marido passou a noite na cidade e só retornaria no final da tarde, após almoçar com os tios e primos. Eu prezava esses momentos sozinha.

Finalizei o café, lavei as louças e realizei pequenos trabalhos domésticos antes de sair para o quintal e encontrar Maria. As amoreiras estavam carregadas e planejamos fazer geleias e licores. Embaladas pelo aroma maravilhoso da lenha queimando no fogão misturado ao suco das amoras, nos distraímos e o tempo passou rápido.

Fui para casa e, enquanto apreciava meu almoço, observava a vida pela janela. Lá estavam as vacas e os poucos bezerros descansando à sombra do baru. Viveriam seguros ali. Tinham nome todos os nossos animais e estabeleciam conosco uma relação muito interessante de reconhecimento. Apanhei o livro que estava lendo, um romance muito envolvente e fui para a poltrona da sala. Poucas páginas lidas e ouvi conversas e risadas nos fundos. Ao chegar na cozinha os encontrei sorridentes. Adorava as visitas dos meus avós.

Quando criança eu ficava observando os dois casais e sentia vontade de trocar os pares. Meu avô paterno, Zico, faria par perfeito com a minha avó materna, Telica. Os dois eram meus preferidos. Tinham mais paciência, gostavam de plantas e eu acreditava que combinavam mais. O avô materno, Agesípolis, e a avó paterna, Dinorá, eram mais sérios e, quando criança, sentia até receio de estar muito perto deles. Coisas de criança, claro. Acredito que passei boas horas pensando como fazer essa troca.

Meu avô Agesípolis segurou firme minhas mãos e me disse para que eu nunca esquecesse o que realmente me fazia feliz e que não desistisse de colocar no papel as histórias que passeavam pela minha mente. Vó Telica me entregou um ramo de florzinhas do campo, coloridas e delicadas como ela. Vó Dinorá me deu um abraço tão carinhoso como nos últimos tempos e vô Zico me entregou um defumador que continha alecrim, macela, alfazema e capim cidreira. Tudo amarradinho com um barbante, como ele costumava fazer com seus embrulhos, bem apertadinho para que nenhuma planta se soltasse. Me entregou e disse que era para usar nos momentos especiais, de gratidão e devoção e que trariam mais proteção para minha casa.

Fomos para a varanda e passamos horas conversando e rindo, lembrando dos causos, das minhas gracinhas de criança e minha gula, notória. Lembramos das viagens para a fazenda, das gelatinas que a vó Dinorá escondia para sobrar para os outros netos, dos almoços de domingo na casa dos avós maternos, da ida ao cinema, na matinê com os primos, do doce de leite puxento que a vó fazia e guardava em um caldeirãozinho com tampa. Contei a eles sobre o trabalho na fazenda, o que colhíamos e que dava para a nossa subsistência, a relação com os empregados e a conversa não tinha fim. Estavam bonitos, as avós perfumadas cheiravam à água de laranjeira em flor, os cabelos brancos, penteados, brilhavam, o sorriso nos olhos...

O entardecer chegou e escutei o som do carro que se aproximava do portão. Era meu marido regressando. Pedi licença a eles, me levantei e fui recebê-lo na garagem enquanto o carro passava pela entrada margeada pelas magnólias. Nos abraçamos e, enquanto caminhávamos para a varanda, contei a ele como havia sido minhas horas sem sua presença. Ocultei a visita dos meus avós. Ele nunca acreditava nesses encontros, sempre tão especiais para mim. Contornamos a varanda, vazia e silenciosa e entramos pela porta da cozinha. Sobre a mesinha, dispostos cuidadosamente, a jarra com as florzinhas do campo e o defumador, aceso, que deixava no ar o aroma inconfundível do alecrim. Sorri.