• Ana Paula Maciel Vilela

Do outro Lado

Updated: Dec 14, 2020


Foto por Ana Paula Maciel Vilela


O galope do cavalo, macio, fazia-me sentir leve. Passando pelos pastos conferia com critério as cercas, os garrotes separados das novilhas com bezerros e, a cada dia da semana, fazia a mesma coisa em uma fração da fazenda.

Como gosto desse lugar! Segurando o chapéu de palha velho e encardido, passava a mão pela testa suada e pelos cabelos brancos em desalinho. A brisa no final da tarde refrescava do calor forte do dia. Parei debaixo do velho jacarandá e alisei com carinho o pescoço do animal enquanto deixava a vista descansar olhando ao longe, sentindo uma paz difícil de descrever de tão agradável. Um bando de curicacas passou em direção à mata fechada enquanto outras aves procuravam pouso para a noite que se aproximava.

Resolvi voltar para a sede pois logo seria noite. Do trote manso logo o cavalo ganhou velocidade e mais uma vez aquele galope macio. De olhos semicerrados percebi meu corpo flutuando após o relinchar assustado do animal. Senti-me arremessado e ao cair no chão a cabeça bateu em algo duro e pontiagudo. Fiquei por instantes procurando entender o que se passara. Ouvi o vaqueiro conversando com alguém e levantei-me sem sentir desconforto. Algumas pessoas levantavam meu corpo do chão e o colocavam na carroça usada para os serviços diários da fazenda. Afastei-me e vi o cavalo a alguns metros. O animal estava com os olhos vidrados e a respiração ofegante. Cobra! Só podia ser cobra. Será que já aplicaram o soro? Tentei falar com alguém, ninguém me ouvia.

No hospital fiquei poucos dias. Não aguentava mais aquele cheiro, aquelas conversas todas como se eu já não estivesse presente. No dia do velório, a casa paroquial estava cheia. Fiquei ali, encostado na parede do lado do caixão, só observando a hipocrisia do povo. Minha filha, há dois anos sem dar notícias, estava com a fisionomia sombria. A mim não engana mesmo! Para mim, minha filha morreu há muito tempo. Esta, desconheço.

Rubens chegou com o filho Francisco e o pai. Meus únicos amigos verdadeiros. Me sentia bem com eles, conversávamos muito, almoçávamos juntos alguns domingos na sede e a prosa avançava até de tardezinha. Pobre do Rubens, está tão abatido! Alguns empregados, gente do bem, que sabia o meu valor assim como sabia o deles, estavam ali, prestando as homenagens. Me senti até comovido com esses poucos.

Perto dali, derrapando em um banco de areia, o carro parou bruscamente prestes a bater em um enorme angico. Esse panaca está achando que está em São Paulo. Sempre correndo, sempre atrasado. Só veio para ver quanto vai sair ganhando. Seu olhar fito na estrada não percebeu quando passou pela ponte, o córrego manso deslizando por entre as pedras, a reserva permanente à sua esquerda, as seriemas perto da porteira da entrada e tampouco ouviu as araras fazendo algazarra na palmeira carregada de coquinho-azedo. Não tinha olhos e nem ouvidos. Provavelmente todos os sentidos do meu genro esnobe e arrogante estavam atrofiados. Quando deparou com a porteira da sede fechada a cadeado sua impaciência só cresceu. E eu achei graça. Esse tolo deve ter pensado que eu estava sendo velado sobre o jirau. Nunca me dera com o infeliz.

No dia seguinte, sem demora, mandou que chamassem Rubens e a família para fazerem os acertos. Francisco convenceu o pai que iria sozinho. Foi recebido por Iara, minha fiel cozinheira, na porta dos fundos, a mando do “patrãozinho”, disse com os olhos embargados pelas lágrimas. Francisco pressentiu que a conversa não seria nada boa. No velório, no dia anterior, Gustavo, o “patrãozinho”, só faltou apressar o padre e ajudar os coveiros tamanha a inquietação do homem.

Sentado em minha poltrona, começou a falar com Francisco enquanto retirava de um envelope umas folhas. Mas esse ordinário não vai nem convidar meu amigo a se assentar! Eu realmente me sentia inconformado e, caminhando de um lado para o outro, só conseguia pensar no testamento feito há muitos anos e que, por não pretender morrer assim, de repente, nem pensei em modificar

̶ Francisco, vou direto ao ponto porque não sou homem de rodeios. Como sabe, moramos em São Paulo e não tenho interesse e nem tempo para cuidar dessas terras, assim a fazenda toda está arrendada para soja até que seja vendida e terão que sair da propriedade. Vocês terão um mês. Senti um espasmo no estômago, estava expulsando todos da fazenda! Percebi a palidez e as gotas de suor no rosto de Francisco que cambaleou mas manteve-se de pé. Fiquei boquiaberto e se já não estivesse morto poderia ter um infarto tamanho disparate.

̶ Mas… Seu Gustavo… um mês… para onde vamos? Estamos aqui há dez anos. O pai e o avô estão velhos... ̶ Há de convir que eu não tenho nada com isso, não é? Vocês darão um jeito. Leve esse documento. Meu escritório fez as contas do que devem receber por direito. Afinal, seu pai já não trabalhava mais na fazenda e a bem dizer, estavam por aqui de favor, não é? Um jeito? Um jeito? Fui até janela. Não podia acreditar no que estava ouvindo.

Francisco apanhou o envelope de sua mão e com a cabeça baixa, os olhos turvos, começou a caminhar em direção à cozinha.

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