• Ana Paula Maciel Vilela

Fazenda do Lageado

Updated: Dec 13, 2020


Com o nariz colado no vidro embaçado do carro eu nem sequer piscava aguardando ansiosa o surgimento de mais um para aumentar a minha contagem. Há duas semanas a notícia tinha sido dada por meu pai: passaríamos as férias na fazenda de meu tio Fernando e meu avô iria conosco. A excitação só se fazia aumentar com o passar dos dias.

Meu avô Zico era muitíssimo querido por mim. Magrinho, baixo e ágil, incansável e sempre executando alguma tarefa, era prestativo e muito atencioso. Meus avós moravam na rua debaixo e sua casa fazia fundo com a nossa. Era hábito trocarmos recados, quitandas ou qualquer outra coisa pelo muro que fazia divisa e era onde ficava o fundo do nosso quintal com a mangueira tamaracá em cujo tronco subia a pimenta do reino, o pé de limão galego que fazia sombra para um pequeno galinheiro, o pé de figo e mais um tanto de planta.

Meu avô era muito especial e grande conhecedor de plantas, fazia enxertia de mudas de cítricos e qualquer outra experiência que resolvesse realizar. Ficava horas agachado, segurando, prendendo, ali, ele e a planta, uma coisa só. Conhecia de bichos também porque havia morado anos na fazenda até que não restou a ele nada mais que um quintal e jardim para se conectar com a terra e não se esquecer de quem era.

Na casa havia muitas plantas, os vasos de minha avó que, dependendo do dia e do humor, me deixava regar e me ensinava o nome das diversas espécies de samambaias, begônias, flor de maio e tantas outras. Dependendo do dia porque o que meu avô tinha de paciência com os netos, com ela ocorria o oposto. Com certeza ela tinha muitos motivos para ser como era, coisas que só compreendi com o passar do tempo. No canto do muro um galinheiro com seus garnizés encontrava-se rodeado pelo milharal onde o vô me ensinou a fazer bonequinhas de milho e eu passava um tempo sem incomodar minha avó.

Além de gostar muito dele, outro fato que me fazia descer o quarteirão correndo era que o vô fumava muito. Enquanto regávamos o jardim comprido me era permitido também acender o cigarro. Ele tinha um isqueiro prateado lindo, chamávamos de “binga”, e eu, propositadamente, demorava para acender. Fingia fumar e passava para ele o cigarro. Era farrista e gostava de um malfeito e sempre achava graça na minha alegria de ajudá-lo em tarefa tão complicada. Assim, saber que durante as férias eu passaria na fazenda e com ele, era uma alegria sem tamanho.

Os dias se arrastavam enquanto meus pais preparavam tudo; roupas, comidas, presentes para os tios e primas que há muito não encontrávamos. Acordei muito cedo no dia tão esperado e enquanto meu pai acomodava no porta malas as inúmeras sacolas, meu avô, encostado na pilastra, contava a ele qual o bicho que havia dado no jogo do dia anterior e quanto ganhara pois tinha apostado na cabeça. A manhã avançava e há uma hora estávamos na estrada quando o calor e os ânimos começaram a se elevar. Antes que meu pai perdesse a paciência com as nossas discussões e perguntas de quanto tempo faltava para chegar e virasse o braço para trás estapeando e tentando beliscar qualquer perna que encontrasse pelo caminho, meu avô propôs um jogo que salvou a viagem e nos manteve concentrados e atentos até que chegássemos na estrada de terra que levaria à fazenda.

Era época dos ipês amarelos e o jogo era contar quantos ipês apareceriam de cada lado da estrada até que saíssemos do asfalto. Minha irmã e o vô contariam do lado direito e eu, do esquerdo. Meu irmão que era bem novo na época ficou desobrigado da contagem. A cada vislumbre de um pontinho amarelo no horizonte era um alvoroço e a alegria estava de volta. Quando o carro se aproximou do acostamento cruzando a estrada, o asfalto deixado para trás, um outro mundo, repleto de cheiros e cores se revelava a mim: mata-burros, porteiras, gado pastando, mata nativa de um lado e de outro da estrada e, às vezes, um peão tocando gado de uma fazenda para outra. Junto aos ipês amarelos outros encantamentos me faziam continuar com os olhos fixos na paisagem.

Desde muito nova a natureza ocupa papel de importância singular em minha vida e, entrar naquela estrada causava em mim, que já estava acostumada a passar finais de semana na fazenda de meus pais, uma sensação de maravilhamento que parecia ser a primeira experiência fora da cidade. Me sentia parte daquilo como se toda natureza ao redor fosse extensão de meu próprio corpo. Após alguns minutos de muita algazarra dentro do carro com a expectativa de chegar ao destino final, o carro parou uma vez mais e foi envolvido por uma nuvem de poeira. Meu avô desceu para abrir a porteira que dava acesso à Fazenda do Lageado e com buzinas meu pai avisava ao irmão que estávamos nos aproximando.

O encontro era sempre uma alegria, com muito abraço, todos falando ao mesmo tempo, os cachorros das primas também excitados latindo e correndo para todos os lados. Tia Belinha era exímia cozinheira e uma mesa farta com quitandas caseiras nos esperava para o café. Pães assados há pouco perfumavam toda a cozinha, rosca com calda de açúcar, biscoitinhos de nata e canela, manteiga caseira produzida ali mesmo além de queijo fresco...

A casa era antiga, piso de madeira que ressoava aos passos de meu tio que se deslocava com as malas acomodando os parentes em cada aposento. Além da varanda que contornava a casa toda, haviam quatro quartos amplos, um banheiro, que era o comum na época e que só tinha água gelada porque ali ainda não tinha chegado a eletricidade. Na hora do banho era aquela fila, cada um pegando a senha e inúmeros caldeirões de água morna eram aquecidos no fogão à lenha para temperar o banho de caneca. A sala era pequena e o melhor lugar da casa era a cozinha com armários de madeira maciça, os “guarda-comidas”, uma mesa enorme no centro próxima ao fogão tendo ao lado um fogão comum que só era usado ocasionalmente. O fogão à lenha estava sempre aceso com a madeira estalando lá dentro e aquele aroma inconfundível da madeira se tornando brasa.

Da porta da cozinha tinha uma pequena passagem que levava a uma cobertura onde ficavam a máquina de moer café, os tanques, um varal coberto usado nos dias de chuva, uma pequena mesa de madeira com bancos compridos, um filtro de barro e uma bandeja cheia de copos de alumínio que brilhavam de tão areados. No final da tarde saímos com as primas, minha irmã e eu, para explorar o quintal, ver as galinhas da Angola com seu cacarejar engraçado “to fraco”, os bezerrinhos novos no curral e na parte baixa o córrego do Lageado onde procurávamos girinos na parte mais rasinha, toda cercada por meu tio para segurança das crianças.

A grande surpresa foi o instante em que, debruçada sobre a pinguela eu tentava capturar um girino já crescido que teimava em voltar para a água, olhei para o lado e lá estava ele: era muito grande com uma faixa branca que atravessava todo seu corpo amarronzado. Com o focinho comprido ele revirava um monte de terra à procura de formigas. O tamanduá bandeira era lindo! Eu somente tinha visto um daqueles em livros e, algumas vezes, estirados nos acostamentos, atropelados e mortos na tentativa de cruzar a estrada. Aos poucos, Bruno, o tamanduá já batizado por mim, foi se afastando em sua busca por alimento e pareceu não se incomodar com nossa presença a apenas alguns metros de onde estava.

Naquela noite nos reunimos na varanda à luz das lamparinas e lampiões de querosene e vô Zico começou a relembrar causos que aconteceram com ele. Recordou-se de um dia que saiu caminhando pelo pasto buscando por uma novilha desgarrada das demais e deparou-se com o maior tamanduá bandeira que já havia visto em sua vida. O animal, uma fêmea, para proteger o filhote, investiu contra meu avô que precisou correr muito até alcançar a árvore Baru e ficar por algum tempo lá em cima até que o animal se afastasse. Voltou para casa sem a novilha, mas feliz por ter escapado das garras afiadas do animal.

Deitada naquela noite não adormeci facilmente revivendo com intensidade tudo o que acontecera à beira do córrego e lembrando das histórias contadas na varanda, do rosto das pessoas na penumbra, do céu repleto de estrelas.... Quando o mês de julho se aproxima e tem início a florada dos ipês é com imensa saudade que me lembro de meu avô e de tudo o que aprendi com ele. E sigo sendo atraída, cada vez mais, a voltar para o interior, viver ali como que plantada no chão de terra vermelha onde viveram meus antepassados.