• Ana Paula Maciel Vilela

Fazenda Estrela





Foto Unsplash por Boudewin Huysmans @boud_live



Com o porta malas cheio de sacolas, caixas de comida, jogos e a encomenda do vaqueiro Bastim, tomamos nosso lugar para mais um final de semana na fazenda.

A excitação se fazia muito maior: o capado seria morto!

Assim que meu pai parava o carro, eu saia em disparada rumo à casa da Aparecida. Andávamos pela beira do córrego, fazíamos comidinha em fogãozinho improvisado com tijolos em frente à casa dela. Subíamos e descíamos o morro que ficava imediatamente atrás da casa fingindo perseguição de índios e vaqueiros. Jogar goiabas e mangas para os porcos era um outro passatempo. Eu adorava vê-los comendo com aquela liberdade, a boca aberta, o caldo escorrendo pelo queixo, pingando no chão.

Não me cansava de passar os finais de semana lá e, quando algum porco capado engordava o suficiente – e hoje penso como eu contribuía com sua vida breve com as frutas atiradas no chiqueiro- meu avô Zico aparecia para matar o animal. Mesmo sendo criança, isso não me assustava ou denotava maldade: o animal teve sua vida boa de porco da roça, criado solto, se lambuzando na lama e comendo frutas e chegava a sua vez servir para alimentar uma família. Era tudo muito natural e comum naqueles dias. Na realidade, alimentava várias famílias porque meu pai distribuía um pouco de carne para a família do Bastim, para as irmãs, os pais e para nós. Era uma festa.

Só podíamos sair da varanda quando nenhum som do animal chegasse o alto do morro. Era o sinal de que meu avô já acertara o coração do pobre e que estava tudo consumado. Descíamos em disparada em direção ao córrego que passava pelo pomar e encontrávamos os adultos na beirada da pinguela, com o animal colocado no girau improvisado coberto de folhas de bananeira com meu avô queimando os pelos do porco. Abria a barriga com a faca afiada e ia jogando água com a caneca até que ficasse bem limpinho. A água, tingida de vermelho vivo, me chamava a atenção continuando seu percurso debaixo da pinguela, passava pelas mangueiras e ia alargando para encontrar novamente o córrego que se escondia por detrás do bananal.

Minha mãe, Lucia e as tias, irmãs do meu pai, ficavam na casa dando prosseguimento às arrumações da casa e do almoço. O churrasco já estava com os acompanhamentos adiantados: vinagrete, salada de folhas, tropeiro, arroz branco soltinho e mandioca cozida. A piscina de cimento, onde sempre machucávamos os pés de tanto ralar no piso, estava limpa. Naquela manhã meu pai tinha lavado e tirado três pererecas gordas lá de dentro. Pobrezinhas!

Quando eu era criança e vivenciava tudo isso, era muito especial essas idas para a fazenda: às vezes meu pai parava o carro antes de chegar na sede para pegar cana caiana e descascar para a gente. E se via uma ou outra vaca, chamava o nome dela, se aproximava para ver se uma mancha no pescoço era alguma ferida ou só sujeira mesmo. A vida tinha outro ritmo. Até para os adultos a vida passava mais devagar. O mundo era outro. Diferente. Melhor.

As lembranças vão e voltam. Lembro de detalhes soltos, tento costurá-los, dar sentido, fazê-los vivos.

Alegro-me por ter vivenciado essas experiências e escrever sobre elas é algo que me transporta para a Fazenda Estrela, nos Pilões.

Ainda sinto o carro descendo pelo morro lateral à casa, deslizando pela estrada de cascalhos e, freando o carro, meu pai olhando para a esquerda, para as terras do vizinho Waltinho e comentando que mais tarde iríamos até lá ver se tinha queijo. Fazendo a curva à direita e logo à frente, à direita novamente e parando defronte ao portão de madeira, feito com duas rodas de carro de boi, pintadas.

Hoje desço do carro e sinto o vento nos cabelos. Fecho meus olhos.

O tempo, por um momento, parece parar. Sinto o cheiro do esterco das vacas, o sol na pele, ouço a algazarra dos pássaros e no curral, Bastim falando o nome de cada vaca e da cria, apartando e soltando os bezerros no pasto menor.

Ouço. Vejo. Sinto.

Estou na fazenda Estrela. O ano pode ser 1978.