• Ana Paula Maciel Vilela

Helga

Updated: 5 days ago


Foto por Ana Paula Maciel Vilela


O movimento suave da rede desalinha sobre o colo os papéis brancos. Branco que me incomoda e contrasta com as cores variadas de meus pensamentos. Folheio diários, folders turísticos, tickets de trem, museus, metrôs, postais… memórias de uma época feliz. Acordo em uma manhã nublada e cinzenta após noite de chuva forte, assento-me na varanda e a brisa gelada me remete a Hanôver, na Alemanha, para o ano que moramos na Glünderstraße.

Fomos recepcionados por Helga, moradora do térreo, em um predinho simpático em uma curva do final da rua, rodeado por demais predinhos, todos de três ou quatro andares, com pequenos jardins e árvores nas calçadas. Na cozinha encontramos uma cesta deixada como boas vindas de Helga e da proprietária com vinho, biscoitos, queijo, maças, pães, manteiga, açúcar e café. Este gesto das duas mulheres caiu sobre nós como um aconchego e nos fez muito bem. Reconfortante.

De todos os passeios em Hanôver, cidades próximas e países vizinhos que conseguimos visitar naquele ano, foi marcante a amizade e carinho dela para comigo e minha família. Apesar de ser uma pessoa de meia idade, reservada e com costumes tão diferentes dos nossos, os encontros eram sempre agradáveis e isso foi fortalecendo nossa amizade. Alguns meses após nossa chegada fomos convidados para jantar em sua casa um típico jantar alemão com salsichas, batatas e repolho fermentado finalizado com ameixas e sidra feita por ela, maças e ameixas colhidas em seu Garten. No final da noite recebi um abraço rápido quando nos acompanhou à porta, o que foi marcante significando afeição e apreço.

O Garten é um espaço muito comum na Alemanha, um jardim, alugado do município com uma construção simples, geralmente usado para passar dias de primavera e verão plantando, colhendo, tomando sol, usufruindo do bom tempo. Foram várias idas a esse espaço, de bicicleta, após passeios pelo comércio local e parques como o lindíssimo Georgengarten e Prinzengarten vizinhos de nossa rua, onde passei muitas horas caminhando e lendo durante o ano. Tive o privilégio de ajudar a colher ameixas para fazer geléias e tortas e após o trabalho sentávamos para tomar chá com biscoitos cuidadosamente transportados na cesta da bicicleta.

Os convites para tomar chá em seu apartamento fazem parte das memórias que mais prezo porque a beleza, o cuidado, o aroma da sala de estar, as cores da infinidade de enfeites, plantas e livros dispostos em todo e qualquer lugar onde houvesse espaço me marcaram de forma especial e é algo difícil de tentar expressar sem correr o risco de parecer insignificante. Na primeira vez que fui convidada para o chá, às 15 horas, precisamente cinco minutos antes, encontrei a porta entreaberta e, ao perceber minha presença, Helga me convidou a entrar e foi me receber no vestíbulo muito sorridente.

Na sala, a mesa estava cuidadosamente arrumada com porcelanas pintadas, o réchaud já preparado para receber o bule, e pude perceber muitos livros, postais, recortes de jornais, fotografias, orquídeas e no parapeito da janela que deixava ver o jardim através da fina cortina de voal trabalhada com desenhos delicados, vários enfeites de cristal. Conduziu-me para o sofá onde, sobre a mesinha de centro, um atlas estava aberto deixando à vista o mapa do Brasil. Sua curiosidade pelo país, pela cidade onde morava e pela população tomou alguns minutos até ela se dar por satisfeita e me mostrar meu lugar à mesa.

Em uma cesta, localizada na lateral de uma poltrona, apanhou uma manta colorida para aquecer minhas pernas e dirigiu-se à cozinha para apanhar o chá que já descansara tempo suficiente. Era escuro e grosso, servido com um cubinho de açúcar e creme de leite delicadamente despejado de lado formando, na superfície, uma nuvem. Só assim poderia ser apreciado. Sobre a mesa também havia um prato, delicadamente pintado com cenas de um templo, lago e cisnes, com biscoitos amanteigados, e outro, igualmente belo, com pedaços de Apfelstrudel. Olhei pela janela, começava a nevar.