• Ana Paula Maciel Vilela

Lugar de Encontro


Imagem por Gabriel Abrão @_gabo1994



Com passos curtos caminho sobre folhas secas que, sob meus pés descalços, estalam.

Nesta manhã fria e nublada busco o jardim.

O pequeno portão enferrujado encontra-se semiaberto, emperrado no meio do caminho. Como eu mesma. Forço sua abertura e penso que há muito ninguém deve atravessar esse caminho. Fico à margem.

Consigo empurrá-lo para dar passagem ao meu corpo, mas é preciso querer. Ter desejo. Atravessar e se entregar, sem proteção e amarras.

Desço o curto lance da escada, poucos degraus cobertos com musgo, com rachaduras, úmidos e repletos de vegetações rasteiras.

Estou dentro do jardim.

Parada olho para os lados e me deixo pertencer.

Escolho uma trilha lateral margeada por hortênsias floridas, rosas e azuladas e me detenho por instantes permitindo que meu olhar se alongue por toda extensão colorida.

Continuo caminhando e logo depois da curva surge o canteiro de lavandas, girassóis e rosas. Uma explosão para os sentidos todos, abelhas alvoraçadas de flor em flor. O aroma é inebriante.

Um pouco mais à frente, uma mata fechada com árvores nativas centenárias, ipês floridos, paineiras, manacás, flamboyants e tantas outras espécies. Pássaros, micos e eu. Me assento em um banco de madeira estrategicamente colocado sob um frondoso jacarandá e fecho os olhos. Presto atenção em minha respiração e a paz toma seu lugar acalmando as batidas de meu coração sobressaltado pelos dias sombrios. Permaneço um longo tempo neste banco, sendo transformada também em árvore, levada a olhar da copa o tamanho real do que me aflige. Lá de cima sou outra: forte, segura, dona de mim mesma, filtrando o que deixo ou não chegar até mim. A brisa suave fortalece meus galhos para que, nos dias de vendaval, eu permaneça inteira.

Essa mata é o que me fortalece, me nutre, me ampara. Cercada por seres sublimes, sou natureza enraizada. Outra.

Dando a volta pela mata me deparo com o jardim de plantas medicinais e aromáticas, as comestíveis não convencionais e algumas frutíferas. A raizeira e curandeira que vive em mim através de meus antepassados, sente uma alegria genuína neste pequeno oásis. Alecrim, manjericão, manjerona, tomilho, hortelã, camomila, erva doce, babosa, ora-pro-nobis, carqueja, dente de leão, serralha, capuchinha, limoeiro, pitangueira, jaboticabeira, goiabeira e amoreira, algumas em flor atraindo abelhas sem ferrão e borboletas. Em um pequeno declive, vislumbro a nascente e, assentando em uma grande pedra, mergulho meus pés na água gelada para finalizar o meu passeio.

O som da água descendo pela pequena cascata agora jorra do centro da minha cabeça, desce pelo rosto limpando todo o meu corpo, deixando músculos e pensamentos maleáveis, fluidos como a água. Desliza contornando os obstáculos como no leito de um rio, não se detendo e seguindo seu trajeto.

Continuo pelo caminho até alcançar, uma vez mais, o portão.

Subo os degraus e me detenho.

Escolho o que continuar carregando quando sair desse lugar.

É o meu jardim particular, meu lugar de refúgio para onde me transporto, aliviando os pesos que teimo carregar, recarregando a energia que escapa de mim nos dias atribulados, enchendo minha mente de beleza, cor e alegria.

Esse lugar está aqui, ao meu alcance, dentro de mim.

E de você também.


Texto produzido junto ao Ninho de Escritores

@ninho.de.escritores

@talesgubes