• Ana Paula Maciel Vilela

O Caminho


Imagem Unsplash por Mario Dobelmann


Minhas palavras estão cinzentas

E se repetem.

As ouço sempre as mesmas.

Assim estão porque em mim dói.

Sua confusão

Seus poucos livros na estante

Suas roupas esquecidas nos cabides

Os sapatos mofando no canto do armário

Dói em mim.

A conversa minutos depois esquecida

A companhia que ele faz a ela

Como se disputassem o primeiro lugar

Os banhos espaçados

Dói em mim.

A gaveta com as anotações presas com clipes

Buscam manter juntas as informações

Perdidas na gaveta

E em sua mente confusa.

Dói em mim as falas

Os questionamentos

A aparente teimosia

A autonomia que se despede a passos largos

O olhar dessolado que tenta ainda entender

Dói em mim

Navegar dentro deles e sentir que estão partindo

De mãos dadas

E que logo não mais olharão para trás

E, se fitarem meus olhos,

Não mais me verão.

Sangro.

Todos os dias sangro a dor de vê-los se afastando.

E dói.