• Ana Paula Maciel Vilela

Pensamentos Ruminantes

Updated: Dec 14, 2020


Foto Unsplash por Tbel Abuseridze @tbelabuseridze


Rolando para o lado alcançou o relógio e interrompeu o som estridente do despertador. Sensação aguda de pontada nas têmporas acompanhadas do murmúrio pessimista de todas as manhãs foram com ele, arrastando-se pela rua. O ponteiro aproximava-se das 09:00 e lembrou-se do aniversário da mãe que, como todos os anos, seria comemorado com um almoço em dois dias. Tudo sempre monótono, igual e sem graça em sua vida.


Entrou no café da esquina e foi logo servido com café e croissant de queijo. Sentou-se no canto esquerdo do balcão. Diariamente no canto esquerdo. Sentou-se, tirou o jornal amassado de dentro do sobretudo e começou a se ocupar com o que levaria para a mãe: colônias, echarpes coloridas, luvas, um vaso de amarílis que ela tanto gostava… todas opções usadas anos anteriores.


Não lhe era nada fácil ir a esses encontros, suspirava enquanto pedia outro croissant, mas o fazia pela mãe, a única para quem abria alguma exceção em sua pessimista e mal-humorada agenda. Sabia bem o que a cunhada pensava sobre ele e seu jeito retraído e antissocial quando apertava aqueles olhos miúdos atrás das grossas lentes dos óculos. Antipatia em pessoa


Chegaria cinco minutos antes do horário estabelecido, a porta estaria semiaberta e, se tivesse sorte, o irmão com sua família detestável, a irmã com a companheira e tia Janice ainda não teriam chegado. Gostava de ser o primeiro, sentar no canto esquerdo da mesa – ah, o canto esquerdo – e fingir estar absorto na leitura do jornal quando os demais chegassem e fossem dados por encerrados os abraços e beijos dos reencontros, falsidades que tanto evitava.


O irmão, ambicioso e esbanjador, adorava dar presentes caros para a mãe para se ostentar junto aos irmãos. Como podia ser tão vazio? Na certa sentia pena dele quando olhava para a sacola da loja de departamentos sobre a cristaleira. A irmã, que sempre sofreu com os preconceitos da família, ficava por pouco tempo nos encontros, alegando trabalho de última hora. Não suportava os olhares e cochichos dos sobrinhos e dos demais pensando que a irmã era uma criatura esquecida por Deus, só podia ser. Depois de tantos anos reagiam da mesma maneira. Pobreza de espírito.


Tia Janice, a fofoqueira, assentava-se na poltrona próximo à janela e tomava notas dos acontecimentos para repassar às amigas nas tardes do bingo. Do canto esquerdo ficava olhando para a janela imaginando todo tipo de ataque que poderia vir sobre a tia, desde um gato assustado, um ladrão e até um avião desgovernado para acabar de vez com aquele suplício. Enquanto ruminava sobre o encontro com os familiares a porta do café foi aberta abruptamente por um homem alto com sobretudo escuro e chapéu de couro e ele percebeu que era o mesmo indivíduo que esteve vindo ao café a semana toda.


Assentava-se sempre do lado direito e pedia exatamente café com croissant de queijo. Este fato o estava intrigando sobremaneira e mais uma vez o estranho retirou do bolso um bloco e uma caneta e começou a fazer anotações. Seus olhos se encontraram por um breve momento. O estranho esboçou um leve sorriso e voltou às suas anotações. Quem seria ele? Um policial? Talvez um detetive seguindo alguém, um caso de infidelidade conjugal? Talvez o homem fosse apenas um professor ou um estrangeiro escrevendo cartas para a família...


Sua mente angustiada e ansiosa fazia com que seu coração batesse descompassado e, neste momento, o estranho levantou-se para ir até o toalete. Sem mais se conter, aproximou-se e, folheando com rapidez o material, deparou-se com a nota “A Vida Como Ela é – título provisório”, com uma ilustração muito bem feita de um homem assentado, com o olhar vago, no canto esquerdo do balcão.