• Ana Paula Maciel Vilela

Uma Tarde com Sarah



Foto Unsplash Florencia Viadana @florenciaviadana


O relógio sobre o aparador de madeira maciça marcava 14:07 quando o som de grande explosão se fez ouvir tremulando os vidros das janelas e causando pânico e assombro nos clientes. Era horário de grande movimento no Lindenblatt Bar com turistas, clientes antigos almoçando ou parando para um café durante o ir e vir das compras.

Apreciando uma taça de vinho enquanto lia o jornal, Oliver teve a atenção desviada enquanto as pessoas corriam para a rua na tentativa de compreender o que se passava. Vestindo seu melhor blazer e chapéu de lã, aguardava a sopa de cebola, tomada religiosamente às terças com pão artesanal morno. A sopa do velho Kaspar não era uma sopa qualquer, algumas cebolas eram parcialmente fatiadas, outras ficavam marinando dois dias em um molho cuja receita era guardada a sete chaves, colocadas inteiras e desmanchavam à medida que o caldo era levado à fervura. Temperos especiais que há décadas o amigo não revelava. Enquanto aguardava, observava a criança sentada na mesa do lado do balcão, sozinha há cerca de meia hora.

Com sua roupa salmão combinando com o chapéu novo presenteado pela avó, Sarah fitava o copo de suco. Por quê a mamãe se demora tanto!! Não queria se preocupar, afinal a mãe a confiava ao amigo Kaspar. Depois de apanhá-la na estação de onde regressava da casa dos avós a deixara para almoçar enquanto levava a irmã menor na aula de balé. São apenas duas estações, refazia os passos da mãe, e afinal, iremos às compras, só nós duas. Não se contendo mais, Oliver conversou no balcão com o amigo e, pedindo licença à criança, juntou-se a ela. Disse que se sentia sozinho naquela tarde e que precisava conversar um pouco. Reservada, mas sentindo-se aliviada por ter companhia, Sarah explicou que a mãe chegaria a qualquer instante e que iriam juntas comprar meias de lã pois o inverno se aproximava. A peça de natal que seria apresentada na escola preencheu boa parte da conversa e a criança relatava empolgada o seu papel, os detalhes do figurino, os ensaios e quem faria naquele ano o papel de Maria, a mãe de Jesus. Ouvia com atenção pensando nas netas que moravam tão distante dali e de como ele gostaria de conviver com as crianças, sobretudo depois que ficara viúvo. A solidão era pesada e fazia com que se sentisse mais velho e cansado.

A sirene de ambulâncias e policiais não cessava e era um entra e sai de pessoas no bar, gesticulando e aumentando a ansiedade de ambos. Onde está a mãe dessa criança?!

Inquieta, Sarah se mexia na cadeira, retirava e voltava a colocar o chapéu e começou a chorar quando ouviu alguém em alto tom dizendo que pessoas haviam morrido na estação, que o trânsito estava bloqueado e que houve uma colisão entre trens.

Neste instante uma mulher carregando uma criança no colo entrou correndo no bar chamando alto o seu nome. Se abraçaram e por instantes o silêncio tomou lugar.

Na escola a irmã se acidentara, tropeçou e caiu violentamente machucando bastante os joelhos, braços e rosto. Foram para a enfermaria onde foi medicada e quando estava mais tranquila foram para a estação onde, por pouco, perderam o trem. Estavam aguardando o próximo quando se deu a explosão e estava tentando chegar de taxi ao bar há muito tempo, porém o trânsito estava caótico.

Perturbado, Oliver despediu-se da família e voltou para sua mesa para finalmente e uma vez mais, sozinho, apreciar a sopa de cebolas. Refletia como é a vida, como não temos controle sobre nada e como tudo acontece a seu tempo.